(Conto) O Tesouro Escarlate

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(Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por A Lenda de Materyalis em Ter Set 12 2017, 19:49

Considerações off

Nota: Novas palavras, baseadas no contexto do turno de hoje, foram adicionadas ao glossário. Veja em: http://materyalis.mo-rpg.com/t3391-cronologia-glossario-as-cronicas-de-aliank

Vamos ao jogo:




YIDRIN

Os ventos frios e a imensidão do céu. Uma visão ímpar para uma criatura cuja morada está oculta nas profundezas da terra. A variedade de cenários e de seres era algo que encantava o grande metamorfo lacertílio, que caminhava por passagens rochosas, aproveitando os últimos momentos antes de retornar aos seus domínios secretos.

Seus trajes, no entanto, não eram tão diferentes dos seres da superfície. Vestia um enorme capote cinza, que escondia sua principal peculiaridade racial: uma cauda, que agora estava envolvida em sua cintura e, certamente, causaria muita comoção se fosse vista por outros habitantes do território aliankino. 

— Ah — suspirava o ser. — Creio que já estou há muito tempo aqui em cima. E espero que esteja tudo inteiro lá embaixo.

Divagava sobre possibilidades desagradáveis, pois conhecia o temperamento arredio de Saslah, uma das serviçais que respondia por ele em sua ausência. Era o líder de seu povo e conhecia o caráter de cada um dos seus comparsas, procurando não julgá-los desnecessariamente. Afinal, sua personalidade também não era tão distinta dos geniosos parceiros que lhe protegiam. 

A criatura parou já perto de chegar ao objetivo. Puxou da roupa as sobras de uma lebre que havia pego e assado na manhã daquele dia, embrulhadas em folhas grandes de uma planta a qual havia esfumaçado na brasa para dar um sabor extra à carne. Porém, ao abri-las, sua expressão se fechou instantaneamente. Os lábios se distorceram antes dele apertar os dentes e desabafar altissonante. 

— E isso é tudo o que restou? — falava sozinho, grunhindo furiosamente. — Malditas sejam essas criaturinhas rápidas e evasivas! Eu preciso de mais umas quatro para ficar satisfeito! Eu deveria ter queimado sua toca, ou quem sabe todo o bosque. Assim pouparia os meus esforços e saciaria a minha fome com algo diferente de insetos! 

Era difícil imaginar que seu corpo robusto se sustentasse com seres tão pequenos. Não, definitivamente ele precisava de mais. Muito mais! 

Não se preocupava em parar e sentar para se alimentar. Fazia isso enquanto continuava a seguir a pequena estrada de terra, enquanto mantinha na face o seu mal-humor espontâneo pela quantidade ínfima de comida ingerida em sua jornada pelas montanhas e, também, pela sua obrigação e responsabilidade de logo ter que voltar ao covil sem nenhuma notícia interessante.

O cenário onde estava era conhecido por ele. Ali, sentia a familiaridade de sua terra e o conforto de não se esconder debaixo de panos e mais panos. Passava por um ambiente rochoso e cálido, procurando uma das entradas que conhecia para retornar ao coração de sua casa. Embora não fosse um segredo lacrado a sete chaves, de maneira alguma aquele caminho era óbvio. Qualquer indivíduo o veria como mais uma caverna desinteressante naquele fim de mundo. Porém, o segredo estava nos vários túneis que poderiam levar os desavisados facilmente a se perder. E ninguém melhor para conhecer as sendas do que os lagartos nativos, principalmente o próprio maioral, que as percorria frequentemente para ir até as regiões externas em busca de conhecimento.

— Cá estou — disse, ao entrar na caverna. — Mais uma vez imerso nestas galerias, imaginando quando visitarei as terras altas novamente.

Começava a percorrer rapidamente o emaranhado de trilhas, descendo até as câmaras onde o calor era semelhante ao núcleo de uma fornalha. Estava ladeado pelo magma do vulcão Majara.

— Logo chegará o dia em que não precisaremos mais nos esconder do mundo — murmurou esperançoso, pensando na situação de seu povo.

A descida era longa, algo até vantajoso para evitar que curiosos sem amor à própria vida chegassem ali. Até que atravessou a última passagem. Tirou o capote e a camisa. Enfim, chegara ao lar. Estava livre dos estorvos que só abafavam ainda mais o seu corpo, mas não dos infortúnios que já haviam chegado naquele território.


*****

— Estamos expostos! Estamos expostos!

Por mais que tentasse se deslocar rapidamente, Misesh, que também atendia pela alcunha de pachorrento, arrastava seu pesado corpo pelo chão áspero da caverna. As pernas traziam toda a sua adiposidade com uma dificuldade incompatível à urgência propagada na mensagem.

Embrenhando-se por um algar cuja luz era provinda por um longo lençol de lava à sua destra, o indivíduo se apoiava nos pilares de metal escarlate, esculpidos habilmente pelos lacertílios.

— Até o eco do seu berro é lento! — vociferou uma criatura feminina, fazendo Misesh se escorar morosamente com as costas curvadas em uma das altas colunas do local.

As mãos enrugadas do ser se apoiaram nos joelhos. Ele estava ofegante. Olhava para o rumo setentrional da caverna, por onde saía um enorme fulgor vermelho de uma elevada passagem em arco, iluminando os passos apressados da interlocutora de outrora.

— Você... já foi mais rápida, Saslah — zombou Misesh.

Uma figura calva se aproximava. Tinha pele negra, com marcas amarelas e sinuosas que pareciam pintadas à mão. Usava somente uma tanga de palha, que ia da cintura até um pouco acima dos joelhos, além de uma roupa formada pela mesma gramínea chamada azex*, que lhe cobria o busto. Uma cauda comprida e pontiaguda era balançada de um lado a outro, sem seguir os movimentos naturais do corpo. Era sinal de que estava impaciente e fazia questão de mostrar isso.

— Por que fui incomodada pelo pachorrento e sua voz anciã? — indagou Saslah, parando com os braços cruzados a pouco mais de uma braça do visitante.

— Você não me ouviu? — respondeu Misesh, ofegante. — Estamos expostos!

— O calor está corroendo a sua cabeça? Por que ao invés de esperar que eu pergunte o que quer dizer com isso, você simplesmente não fala?

A cauda de Saslah bateu mais intensamente no chão, chamando a atenção de Misesh, que não dispunha da mesma força no mesmo atributo físico, tão diminuto e inexposto.

— Estão chegando aqui!

Ela arqueou as sobrancelhas desprovidas de pelos. Misesh entendeu que deveria continuar falando, ou experimentaria a ansiedade de Saslah de uma maneira nada agradável.

— Eu quero falar com kop-Yidrin.

— Vai ter que falar comigo primeiro — respondeu Saslah, meneando a cabeça negativamente. — E, mesmo que eu permitisse sua passagem aos salões, kop-Yidrin não está aqui.

— Onde ele está? — perguntou Misesh, com o semblante sôfrego.

— Foi se arrefecer no outono da superfície. Perdeu a noção do tempo, pachorrento?

Misesh abaixou a cabeça. E só deixava a intermediadora do líder lacertílio ainda mais irritada.

— Você vai falar, ou não? Se o que quer dizer com "estamos expostos" for algo como alguém ter caído em um dos seus charcos nojentos e visto essa sua face imunda, dê meia volta antes que eu destile meu veneno em sua bocarra!

Saslah apertou o pulso. Uma gota de um líquido viscoso caiu lentamente de uma de suas marcas amarelas. Misesh a fitou, pávido. Era melhor ser convincente.  

— Estou de volta! — gritou uma voz conhecida. — Saslah! Cadê você?!




MALTHUS

As trevas protegiam o seu aliado, que logo entraria incólume no casarão repleto de tesouros há muito esquecidos.

Mesmo tomados pela intensidade da chuva que caía naquela noite, os patrulheiros sempre eram um problema. Naquele turno, o toque de recolher era implacável. Por isso, a figura sombria não poderia simplesmente passar por eles.
Observava todos os detalhes com atenção. Contornava a casa pelo flanco leste, por onde não havia outros lares escondendo testemunhas nas janelas. O muro alto, aparentemente intransponível, foi estrategicamente burlado. Há dias, caixotes cheios de suprimentos eram deixados próximo à entrada do portão de acesso, quando agricultores ainda tinham a esperança de receber algo por suas mercadorias. Até que as encomendas pararam de chegar. Os aliankinos, sempre tão moralistas em nome de seu deus, eram incapazes de saquear os pertences deixados na rua. Não fosse o fato de que os Nesoma tinham negócios com a realeza e seus agentes locais, tudo aquilo já teria sido recolhido. O Intendente ainda aguardava um tempo até que decidisse declarar toda a família morta. No entanto, todo o evento era primoroso às intenções do homem, que empilhava dificultosamente os cunhetes para saltar a enorme parede e invadir o território proibido.

O homem caiu em uma parte fofa do jardim. Usara o máximo de sua vigorosidade para procurar a entrada mais próxima, mas não encontrara outra além de um improviso: uma janela de madeira quebrada, com os trincos facilmente violáveis. Correu pisando inevitavelmente nas poças de lama, que encardiram as roupas grossas que usava.

Forçou a madeira. Conseguiu findar o objetivo. Pulou para o interior do casarão sem dificuldades. Entrou em uma grande sala de estar, vislumbrando um ambiente luxuoso. Uma rica tapeçaria aveludada tomava conta de quase todo o cômodo, indo desde a janela anterior até uma braça e meia rente a duas poltronas de madeira maciça e folhadas em prata. Estavam diante de uma lareira, com lenha suficiente para que fosse usada pelo resto da noite.

Havia diversos outros detalhes. Uma harpa com bordas polidas no canto esquerdo, junto a um pufe revestido com pelos de algum animal das montanhas nortenhas; dois sofás entalhados à mão, com forro prateado como as sédias, posicionados perpendicularmente no centro da sala; quatro candelabros de chão, dispostos em cada extremidade do ambiente; duas portas, uma a esquerda e outra a direita; e, por fim, uma mesa de carvalho, com dois lugares nas extremidades e outros quatro distribuídos nas laterais do móvel.

Meio receoso, o invasor começou a explorar o local, espalhando lama à medida em que andava. Olhava para tudo como um caçador indômito. Levantava as extremidades do tapete, procurando por algum alçapão ou, quem sabe, objeto. Nada. Sua adrenalina o impedia de pensar nos detalhes com cuidado. Logo desistiu dos móveis e tentou a porta da direita. Estava trancada. Ainda restava a outra. Indeciso, pensava em seus próximos movimentos, enquanto outro indivíduo, não muito longe dali, intentava entrar no casarão.

Ao contrário do primeiro, porém, este conhecia bem a propriedade, mesmo estando distante dela há algum tempo. Ali vivera alegrias e tristezas por muitos anos. Ansiava chegar logo, mas seus passos eram lentos e seu corpo não parecia dar conta da chuva fria e do vento constante que tomavam aquela noite.

Tomara o mesmo caminho do ladrão que o precedera no ato. Ao ver o jardim, constatava que já não era como se lembrava. Os canteiros, tomados por ervas daninhas, não tinham o cheiro doce das mais diversas rosas que sua mãe cultivava, o que era estranho para ele. Todavia, nunca gostara daquele aroma. Preferiu sair logo dali, se dirigindo para a janela aberta.
As passadas atiçaram os sentidos do outro invasor que, tenso, se deslocara até a porta da esquerda. Obteve sucesso em abri-la e não hesitou em passar. Continuava despercebido. Só não sabia por quanto tempo.

Enquanto o antigo morador se deparava com a sala de estar, o homem sombrio encontrava um compartimento de jantar. Sua natureza o possibilitava enxergar com facilidade no breu do local. Porém, não teve tempo de minuciar outros detalhes, além de uma mesa comprida e muitas cadeiras enfileiradas. Estava atento ao ambiente vizinho. Precisaria agir ao menor movimento.

O outro, no entanto, percebia que o lugar estava exatamente como lembrava, porém mais empoeirado, descolorido e... Enlameado! Passava as mãos por cada móvel com serenidade, contemplando-os com o único olho que ainda lhe proporcionava visão. A sujeira do local não foi suficiente para o despertar do transe gerado pelo retorno nostálgico. Porém, logo novas companhias o obrigariam a recobrar a consciência.

*****

— E então, Wilnas? Podemos ir?

A voz fina da adolescente indagava o namorado apressadamente. A chuva apoquentadora ensopava os corpos de ambos, escondidos em um beco escuro numa esquina próxima ao casarão.

— Falta pouco — respondeu Wilnas, forçando a vista entre as gotas grossas e o vapor denso que o impedia de ver com clareza a movimentação do trio de guardas aliankinos que patrulhava as ruas. A noite já havia passado da metade. O toque de recolher à plebe, no entanto, não valia para jovens audaciosos, que não se intimidavam mesmo num reino imperado pela inquisição.

— Estou com frio — reclamou a menina. — Devíamos ter esperado uma noite seca.

— Fique calma, Merija — disse Wilnas, com um sorriso no rosto. — Terei muito tempo para lhe aquecer nas colchas dos Nesoma.

Ela não respondeu. Se encolheu e espirrou, assustando Wilnas. Felizmente, os homens já haviam se afastado o bastante para não ouvi-la.

— Agora! — sinalizou Wilnas. — Vamos!

Ambos correram. Todos os empecilhos já estavam dispersos. Há meses, o último dos Nesoma não retornara àquele lar. Os serviçais também abandonaram a propriedade. Afinal, não havia mais quem os sustentasse. Sem pagar os tributos, logo seria tomado pela ordem de algum déspota aliankino. E, enquanto isso não acontecia, servia perfeitamente como refúgio para os mais diversos propósitos.

Enquanto o casal usava o mesmo caminho dos outros, lá dentro, o verdadeiro morador era tomado por uma torrente de lembranças distantes e difusas. Seu rosto expressava inquietação, como se ainda tentasse entender a realidade em que agora estava. Até que suas divagações foram interrompidas por um barulho, e seu instinto possessivo alertou que alguém invadia seu antigo lar.

Rapidamente, pegou um braseiro no chão. Defenderia-se com ele, mas se lembrou da fraqueza que abatia seu corpo. Desistiu, deixando o objeto no console da lareira.

Olhou para a esquerda, a mesma que fora usada pelo salteador. Foi o mais rápido que pode até ela, conseguindo atravessá-la discretamente. O aposento estava escuro, porém, seu estado permitia enxergar todo o ambiente com facilidade. Não se ateve, contudo, a reparar em suas minúcias. Seu foco estava nos intrusos, de forma que também não percebera o outro indivíduo furtivo que o observava encolhido atrás da mesa.

Quando os adolescentes enfim entraram, ficavam maravilhados com todo o requinte. Mas Merija não conseguia se concentrar. Abraçou o próprio corpo, se recostando em Wilnas, que a amparou e sorriu.

— Lugar incrível, não é? — perguntou o jovem. — E ainda há tanto a se ver. Nem que orássemos a Materyon por décadas, conseguiríamos algo assim.

Quieta, Merija parecia intimidada.

— Tem certeza que é seguro ficarmos aqui? — perguntou ela, preocupada.

— Ora, quem poderia nos atrapalhar?

O garoto, que não tinha mais que dezesseis primaveras, correu até o sofá da direita, onde se jogou displicentemente, sujando o belo estofado.

— Venha, minha querida! Vou cumprir a minha promessa. Vou lhe aquecer!

O frio parecia agora o menor dos problemas para Merija. Ignorara o convite do amante e caminhou lentamente até a porta da direita. Assim como o ladrão, não conseguiu abri-la. Restava a outra. Começava a ir para lá.  

Do outro lado, os homens ouviam as vozes joviais. O último a entrar encostara o ouvido na porta para entender melhor o que diziam. Constatou que passos se aproximavam. Estava prestes a ser visto! Foi tomado pela intranquilidade. Abriu a boca espontaneamente. Há muito tempo não ouvia a própria voz, jazida no fundo de sua garganta. Agora, ela era a sua única arma. Faria com que ela ecoasse assim que a porta fosse inevitavelmente aberta.

— Já sei! Quer aproveitar a casa primeiro, certo? — perguntou Wilnas, com um sorriso abobado no rosto.

Ela não respondeu. Girou a maçaneta e abriu a porta.

— Vão embora! — bradou urrante o residente, defronte a garota indefesa.




NATHAN

As batidas constantes da aldrava do portão de ferro ribombavam, quebrando o silêncio lúgubre da madrugada e atraindo muitas atenções ocultas. Emitiam um alerta impreterível. Não parariam, até que o único indivíduo disponível para atender aos dois encapuzados finalmente aparecesse.

— Esqueceram do toque de recolher? — indagou uma voz masculina, rouca e envelhecida. — Quem pode ser tão idiota para vir a uma necrópole nesse turno?

Os dois homens se entreolharam. Não confirmariam, obviamente, uma resposta tão degradante.

— Abra! — ordenou um deles.

O ancião descerrou uma portela, suficiente apenas para revelar seus olhos claros e nariz encrespado. Surpreendeu-se em ver os homens parados lado a lado como estátuas. Uma aparência ainda mais sombria era conferida pelas túnicas negras que os protegia da chuva e cobria seus rostos.

— Quem são vocês? — indagou o velho.

— Pessoas que desejam conhecer a Região Disforme — respondeu o outro.

O anfitrião olhava como se os chamasse mentalmente de estúpidos.

— Já vi que são forasteiros — disse o macróbio. — Sabiam, por exemplo, que é proibido vestir preto em Aliank? Ou que os poucos que retornaram da Região Disforme hoje estão loucos, presos nas masmorras?

— Sim — respondeu o outro, deixando o interlocutor sem reação por um momento.

— Tudo bem, estranhos. Já que não conseguem entender, então serei mais claro — esbravejou o velho, pigarreando. — O meu dever é enterrar os cadáveres, não conduzi-los à morte! Compreenderam?

A portela se fechou. O velho, que carregava uma lamparina, já não tinha mais saúde para continuar debaixo de água e sereno. Murmurava contra os pretensos estrangeiros, enquanto voltava para o casebre miserável onde vivia e, ao mesmo tempo, vigiava a necrópole.

Contudo, um tilintar foi ouvido do outro lado. Ele se tornava cada vez mais intenso, a ponto de fazer o coveiro parar. Olhou novamente para o portão, tentando entender o que se passava. Meneou a cabeça negativamente e seguiu o caminho de volta. Porém, as batidas da aldrava o interromperam novamente. Já não aguentava mais tanta perturbação.

— Vão embora! — gritou ele. — Tenham mais amor a única vida que Materyon lhes permite ter!

Foi quando fez menção de se virar novamente, que percebeu não ter mais vontade própria. O barulho tornava-se excruciante, mas não o deixava partir. Sua cabeça estava a ponto de explodir. A única maneira de interromper aquilo era abrindo o portão. A mente não parava de sugerir aquele ato. Era mais forte que ele. Precisava fazer isso. Que se danassem os ingênuos.

O coveiro, então, tirou um molho de chaves de sua túnica. Em verdade, não queria fazer aquilo. Simplesmente não faria, mas estava sendo literalmente forçado, embora raciocinasse perfeitamente. O corpo tremia sob o domínio da força misteriosa que conduzia todos os seus nervos. Seria obrigado a deixar que aqueles tolos seguissem em direção à Região Disforme. Apesar de se importar com eles, não podia evitar que fizessem o que bem entendessem.

O peso do portão tornou-se ainda maior, duelando contra a idade avançada de seu guardião. Com muita dificuldade, ele consumava o ato. Escancarava a entrada. Contudo, não esperava que além da vontade usurpada, o campo externo traria as últimas visões de sua vida. Foi surpreendido pelo mover rápido de um vulto negro, que saltou sobre sua jugular, cravando nela caninos descomunais e pontiagudos. Enquanto sua luz se esvaía lentamente, o outro encapuzado seguia sem muita pressa ao horizonte setentrião, numa trilha formada entre túmulos e mausoléus.

— O sabor do sangue ancião é como o vinho: quanto mais velho, melhor é o sabor — disse o primeiro peregrino.

O outro homem, antes debruçado sobre o corpo do coveiro, o deixou ali, morto indignamente. Era possível ver seus olhos vermelhos por baixo do capuz, fitando o outro que seguia lentamente.

— Como acharemos a tal Região Disforme? — indagou o assassino, altissonante.

— A morte nos rodeia. Posso sentir a presença de seu emissário — respondeu, parando por um momento. — Vamos! Até ele deve ter um preço.

O homicida não apressou o passo. Acompanharia o assecla de longe. Estava ressabiado, pois ainda não entendia como era possível dialogar com a morte, que já os observava  através de uma penumbra invisível aos olhos dos seres ainda presos ao mundo carnal. Era como dizer que as trevas vigiavam o mover daquelas sombras.

Os dois indivíduos atravessaram a necrópole, alcançando uma enorme campina. Após algum tempo caminhando incólumes, notavam que pequenas esferas etéreas e cinzentas surgiam ao redor deles, acompanhando seus passos. Eram manifestações espirituais conhecidas como fogo-fátuo. Almas errantes tentavam intimidá-los, pois haviam passado por uma barreira delimitadora onde a morte atingia o auge do seu poder.  

— Quem ousa se aproximar da Região Disforme? — inquiriram os espíritos, em uníssono.






FALLEN

A água da clepsidra estava prestes a transbordar. Os ventos frios da zona montanhosa de Majara traziam um fragor veemente, quebrando o silêncio nos casebres destinados aos expatriados da capital. Ademais, o som das botas metálicas dos vigilantes aliankinos estrondeava no calçamento de pedra das ruas quase mortas, alertando aos habitantes que não deveriam atentar mais uma vez contra as regras do reino.

Àquela noite, contudo, seria diferente. Criaria movimentos avessos às regras pré-estabelecidas em Umonal, a cidade dos exilados.

Uma extensa propriedade fora isolada há nove dias, anexando oito casas em uma. A obra atendia ao gosto de alguém que ainda podia gozar de algum privilégio: Lady Ciadra, como costumava ser chamada a líder da Guilda dos Proscritos, que há muito tempo tirara na surdina o domínio da realeza aliankina daquelas terras. Sua posição, atualmente maior que a do próprio Intendente designado pela alta cúpula do reino para administrar a província, era suficiente para realizar qualquer desmando. Entre eles, ordenar que os antigos moradores da região fossem trasladados para o sul, onde não seriam um estorvo para os negócios que ali seriam iniciados.  

Uma grande festa foi preparada no novo lar de Ciadra, vulgarmente apelidada de "caserna" pelos membros da guilda. Dali, surgiriam oportunidades, descobertas, pactos e convenções. Ações inesperadas para hereges marginalizados pela aristocracia aliankina, porém perfeitamente capazes de planejar formas minuciosas de minguar o poder estabelecido por Berong há duzentos anos.

Diante do portão de ferro que agora separava a rua deserta e o imóvel, dois homens conversavam. Um deles estava vestido elegantemente com trajes finos, sedosos e azuis. O outro era um patrulheiro aliankino que, se estivesse realmente exercendo o seu ofício, deveria ter levado imediatamente o engomado à clausura em um casebre qualquer.

— Então, entendestes o roteiro, senhor Edcas? — perguntou o homem de aparência nobre. — Lady Ciadra não aprecia nem recompensa a desordem.

— Comigo aqui, vocês estarão seguros, senhor Sanlay — respondeu o armífero, tocando no cabo da espada embainhada.

— Pensei em lhe deixar algumas instruções por escrito, mas temo que isso não lhe seja útil, estou certo? — indagou Sanlay.

— Infelizmente — disse Edcas, que, como muitos em Aliank, não sabia ler ou escrever. — Mas não se preocupe. Tenho uma boa memória.

Sanlay meneou a cabeça positivamente.

— Estamos esperando três figuras muito importantes. Eles não podem ser barrados em hipótese alguma. Fui claro?

— O bardo, a meretriz e o... elfo. Correto? — perguntou o guerreiro, demonstrando asco à última palavra.

— Estes mesmos. Mas sua mente recordará seus nomes?

— Estão mais claros que a neve invernal, senhor.

— Muito bem. Então, entrarei. Há muito o que preparar para esta noite.

Edcas se retirou, passando pelo jardim de arbustos recentemente plantados na entrada. O guerreiro se voltou para o lado de fora, onde tudo permanecia ermo. Por algum tempo, permaneceu acompanhado do som dos ventos e dos burburinhos que já começavam entre os convidados já presentes na festa. Até ouvir uma sinfonia leve e tranquilizante, propagada pela flauta de um homem com trajes simples, porém elegantes.

O guarda só pode ver melhor o músico quando ele chegou bem próximo do portão. Usava uma capa azul com um capuz caído a partir da nuca, um pequeno chapéu cinza com uma pluma vermelha presa no alto da coroa, uma camisa marrom larga de botões, calças cinzentas e botas de couro negro. Uma indumentária muito comum entre musicistas.

— Uma bela noite, não? — perguntou o homem, parando a melodia ao chegar perto da entrada. — Gostaria de me encontrar com Lady Ciadra.

— Você certamente é o bardo mencionado pelo ecônomo de Lady Ciadra — respondeu o vigia. — Elgard, estou certo?

O bardo sorriu e não respondeu diretamente ao que era óbvio.  

— Pelo visto, não fui o primeiro a chegar — disse Elgard, ironizando o fato. Bardos normalmente não são pontuais, pois gostam de gerar expectativa para o público que vão se apresentar.

— Faltam poucas pessoas. Na verdade, estávamos esperando três, especificamente. O senhor e mais dois. — respondeu, abrindo caminho. — Fique à vontade e tenha uma boa festa. Creio que terá muito trabalho em entreter os convidados de Lady Ciadra.

Apesar de não falar mais nada, Elgard não perdera sua simpatia e rumava para o interior da casa,
enquanto o sentinela voltava ao trabalho. Não demorou muito a ganhar novo foco em sua visão. Desta vez, era absorvido pela toada graciosa dos passos de uma mulher, cujo caminhar garboso causava a impressão de que iria levitar. A capa bordô de veludo, que cobria todo o corpo, lembrava muito os trajes usados pelas aristocratas aliankinas.

Diferente do bardo, ela disfarçava a face com o capuz de sua roupa, de onde era possível ver alguns fios de cabelos negros, que balançavam levemente com a brisa da noite fria.

— Boa noite — disse a mulher ao parar diante do guarda, que se sobressaltou com sua presença. — Gostaria de me encontrar com Lady Ciadra. Ela me aguarda.

— Você poderia ser levada à fogueira na capital, se lá vestisse uma roupa deste tom — advertiu Edcas, falando animadamente. Referia-se à proibição imposta pela inquisição ao uso da cor vermelha e pigmentos propínquos nas vestimentas em todo o território aliankino, por considerá-la alusiva ao estandarte dos seguidores de Marilis, o deus maldito. Poucos eram exceção à regra, e aquela proscrita certamente não era uma delas. — Entre! Sei muito bem quem você é.


Outros convidados chegaram na sequência. A maioria veio em pares. Eram membros do destacamento local, novos integrantes da guilda ou mesmo forasteiros que entraram em solo aliankino com a conivência de hostes fronteiriças. Tudo perfeitamente arranjado. No entanto, ainda restava um. Seus olhos prateados observavam a tudo durante algum tempo, encolhido e imóvel em um canto sombrio de uma das casas vizinhas, paliado como um mendigo enrolado em uma estopa imunda. Desavisados julgariam-no morto, o que logo seria refutado ao constatar que ele podia se mexer.

Deixando a peça suja deslizar de seu corpo até o chão, o indivíduo se levantou nas sombras. Usava uma jaleca grossa e negra, presa de um lado a outro por três tiras de couro, cruzando o peito até terminarem em presilhas prateadas quase à altura do cinto largo de fivela redonda, que também atava a vestimenta do dorso. Uma camisa branca de crepe sedoso podia ser vista por baixo, coberta por um colete negro do mesmo tecido e um lenço de tonalidade creme em torno do pescoço sob a gola, caindo sobre o colo do peito e preso embaixo pela lapela de sua jabona.

Logo no início da caminhada, puxou as mangas e as alisou com suas luvas brancas de cetim engomadas, tirando a poeira que ainda insistia em acompanhá-las. Um grande chapéu de couro negro, pontiagudo e envolto por abas largas que pendiam para baixo, ocultava seu rosto até a parte inferior da linha das orelhas, sendo possível ver apenas duas mechas de cabelos em cada lado do rosto, que caíam até o tórax e cintilavam como prata. A aparência era a de um bruxo, que controlava o ruído dos saltos de suas botas de cano alto, permitindo que só fosse notado pouco antes de chegar ao portão, causando surpresa no vigia, que o observava passar sem que a devida atenção lhe fosse dada.


Última edição por A Lenda de Materyalis em Ter Out 03 2017, 19:04, editado 20 vez(es)

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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Singlond em Qua Set 13 2017, 10:05

Aquela era apenas mais uma noite. Já não sabia quanto tempo havia se passado desde que voltara a visitar aquela propriedade que lhe trouxera alegrias e tristezas por muitos e muitos anos. Seus passos eram lentos e seu corpo não parecia dar conta da chuva fria e do vento constante que tomavam conta da noite. O jardim já não era como se lembrava. Os canteiros, tomados por ervas daninhas, não tinham o cheiro doce das mais diversas rosas que sua mãe cultivava, o que era estranho para ele, pois nunca havia gostado daquele cheiro.

O casarão, ainda que imponente, mostrava sinais de abandono. Já não havia segurança, a não ser a dos guardas da cidade que, tinha certeza, não o haviam visto ao passar pelos caixotes deixados por fazendeiros e atravessar o muro. O grande salão interno estava exatamente como lembrava, só que com mais poeira e menos cor, em sua opinião. Passou a mão por cada móvel de madeira e tapeçaria com solenidade. Parou diante da bela harpa e a contemplou com seu único olho bom como se fosse a coisa mais linda que já vira na vida, deslizando seus dedos calmamente pelas cordas, como se desejasse tocá-la. Seus olhos percorriam os detalhes de cada peça enquanto sua mente era inundada por uma torrente de lembranças tão distantes e difusas que era impossível que seu rosto não demonstrasse dúvidas sobre a veracidade delas.

Um barulho. Alguém invadindo sua casa. Por um momento pegou o braseiro que estava no chão próximo para se defender, mas estava fraco e, pensando duas vezes, pendurou-o acima da lareira, na parede que subia para a chaminé. Correu até a porta de ferro da esquerda e a fechou sem barulho. Um corredor escuro se adiantou à sua frente, mas para ele era como se nunca houvesse saído daquela casa. Sabia que nada viria do porão.

Ouviu vozes. Dois jovens conversavam. Encostou o ouvido na porta para melhor entender o que diziam. Ouviu passos se aproximarem da porta e viu a maçaneta girar. Segurou-a com todas as suas forças, e como a mesma não moveu, a pessoa do outro lado desistiu. Soltou um suspiro baixo, mas continuou quieto atrás da porta. Não queria ser visto naquele estado deplorável no qual se encontrava, mas seu intestino virou e torceu. Uma sensação maior que qualquer coisa que já havia sentido inundou seu corpo por completo. Sem perceber, abriu a boca lentamente e uma voz que há muito não ouvia saiu do fundo de sua garganta como um urro, ecoando pelo vasto salão do outro lado da porta.

— VÃO EMBORA!


Última edição por Singlond em Sab Set 16 2017, 20:24, editado 1 vez(es)
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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Elgard em Qua Set 13 2017, 15:14

Após um leve tempo com Edcas observava a rua que em si ainda era deserta começou-se a se ouvir um som leve e suave, diferente dos burburinhos que vinham dos convidados, parecia ser o som vindo de uma flauta. O som parecia tranquilizar devido a sua leveza aparente e então logo pode se ver um Homem com trajes aparentemente simples e ao mesmo tempo com certa elegância pessoal, trajando uma capa azul com capuz, que se encontrava abaixado e em sua cabeça um pequeno chapéu cinza e uma plena vermelha presa, ele também estava usando uma camisa marrom e calças cinza.
Ele vinha caminhando e tocando suavemente sua flauta, e era como se tudo fosse ficando mais devagar exceto os movimentos do bardo, a lua. Assim que chega próximo ao guarde ele então para de tocar e em quanto guardava sua flauta na cintura também removendo o chapéu.

— Uma bela noite não? — Disse o bardo — Gostaria de me encontrar com Lady Ciadra. Creio que não vejo ter sido o primeiro a chegar, correto? — Ele fala sorrindo como se fosse algo costumeiro um atraso vindo de sua pessoa.

Após questionar ele aguardou uns estantes, mesmo após a resposta do que havia perguntado parecia que ele esperava alguma outra coisa, talvez alguma informação ou indagação, porem logo após ele começa a adentrar passando pelo jardim de arbustos recentemente plantados na entrada.
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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Nathan em Qui Set 14 2017, 11:03

O som das batidas no portão pesado de ferro ecoava na vastidão da necrópole, com certeza atraindo atenções muito mais sombrias que a do velho guardião local. Indiferente ao que se passava entre os invasores e o agora novo defunto junto ao portão que se abrira com novo estardalhaço, quebrando o silêncio fúnebre da madrugada, jazia um observador ainda mais sinistro que os dois mortos-vivos recém-chegados.

Este se mantinha oculto, acompanhando o movimento dos invasores com olhos púrpuras, tomados de energia kalaidrina que permitiam enxergar através da película que separava o plano metonyano daquele habitado pelos espíritos e criaturas cymblarkinas. Antes de revelar a própria presença, o Ceifador estudava os sangue-sugas e buscava perceber seus pontos fracos e habilidades. A demonstração de poder para dominar a vontade do coveiro reforçava a cautela do artaninfolo, que não recebia a visita de simples curiosos.

Permitia que os vampiros avançassem cada vez mais próximos da lendária Região Disforme, como era conhecido o local onde o tecido da realidade era tão fino que por vezes os planos espelhados chegavam a convergir. Para não se mostrar abertamente aos invasores, o marilista invocava algumas almas errantes, comuns na necrópole, e aqueles sensíveis ao cymblarkin veriam algumas esferas etéreas flutuarem dispersas entre os túmulos. Aquelas manifestações espirituais eram conhecidas vulgarmente como fogo-fátuo.

- Quem ousa se aproximar da Região Disforme?

A voz ecoaria ao redor dos invasores ao cruzar a barreira entre os planos. A intenção era fazer os vampiros acreditarem que inicialmente eram interpelados apenas pelos espíritos que habitavam o local, e não pelo próprio Ceifador.

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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Malthus em Sab Set 16 2017, 19:25

E ao Pico da noite apenas o vento soprava ao horizonte, não tinha sinais de nenhuma criatura viva por perto e em uma rua afastada via-se um casaram. A chuva caia intensamente e Malthus aproximava da localidade em busca de completar sua missão. O Alukan apos chegar observava de uma distancia segura a presença de alguns guardas próximo ao local, e logo escondia-se nas esquinas escuras ali próximo. Apos alguns minutos o momento surgia e Malthus logo adentrava na localidade sem muita dificuldade. Apos observar os arredores percebiam que todas as portas e janelas estavam fechadas, exceto uma aparentemente já violada, uma pequena janela de madeira.

Malthus aproximava da janela e olhava de forma rápida o interior da mansão percebendo que ninguém estava ali, saltava rapidamente sobre a janela e logo se via em uma grande sala com moveis finos e caros começava a vasculhar o local olhando atentamente como se busca-se alguma coisa, entretanto, era notável que mais pessoas estiveram ali aquela noite, passos e rastros de lama estavam localizadas no recinto, e meio receioso abaixava-se próximo a arpa e levantava um tapete próximo de duas poltronas ali presente, infelizmente nada encontrava. Impaciente, Malthus abria a porta da direita dando acesso a outro tipo de sala, deixava uma pequena frecha de luz sobre a porta apenas para da uma pequena iluminação no ambiente, novamente ninguém avista, via-se uma mesa menor e quatro cadeiras também de material requintado, uma estatueta de canto e uma enorme pratilheira com diversos livros de todos os tamanhos e cores, na parte alta da pratilheira um pequeno bau trancado a chave o qual Malthus retirava e colocava sobre o chão em um local em que a frecha ilumina-se.

O alukan observava o ambiente mais cautelosamente ali mesmo abaixado no piso da sala, não era possível ver muito mais apenas outra janela de madeira trancada no fundo da sala, e sem pensar duas vezes Malthus força o bau quebrando a fechadura sem muito pudor e via uma certa quantidade de papeis velhos dentro dele junto com muitos pergaminhos. Na sala a qual estava não tinha sinais de visantes, nem passos, nem lama, porem infelizmente Malthus ouve algum barulho vindo da sala ao lado, do qual tinha saído, e sorrateiramente observava pela frecha da porta quem aproximava-se do lugar, interrompendo sua ação de busca.
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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Salenae em Seg Set 18 2017, 10:05

Salenae caminhava lentamente em direção à propriedade, seus passos eram graciosos, quase parecia levitar de tão suave que era seu toque ao chão. Ela vestia uma capa bordô de veludo, com um capuz cobrindo seus cabelos e ocultando sua face. Embaixo da capa, trajava um vestido, que parecia da alta elite aliankina, porém parecia um pouco mais gasto do que deveria.
Neste momento, ela tinha um objetivo a cumprir e não desejava chamar atenção, não pelo menos até chegar lá.
Mesmo com o capuz, era capaz de sentir a brisa da noite, ela sempre gostou das noites frias.
Enfim ela chegou ao lugar que precisava, ouvia as vozes em conjunto de algumas pessoas lá dentro e o guarda parecia ansioso na entrada. Salenae se aproximou do guarda, que se sobressaltou com sua voz doce, mas que parecia penetrar nas profundezas da alma.
- Boa noite! Gostaria de encontrar lady Ciadra, ela me aguarda.
Ela então entrou na sala principal, onde estavam os outros convidados, retirou a capa e a colocou em um cabideiro próximo à entrada. Agora era possível vê-la melhor. Era uma humana, aparentava ter cerca de 20 anos, pele quase tão alva quanto a neve, longos cabelos pretos azulados e ondulados que desciam até abaixo de seus quadris e belos e penetrantes olhos azuis. Seu vestido era de um cinza bem escuro, quase preto, com alguns detalhes em renda vermelha, contornava sua silhueta, marcando bem a cintura e apresentava um decote bem ousado.  

Quase todos os presentes a olhavam, mesmo sem ter a intenção. Ela sorriu e observou a sua volta, em busca de lady Ciadra.
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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Fallen em Seg Set 18 2017, 13:57

A maior parte dos convidados parecia já ter entrado na propriedade.Em um canto sombrio de uma das casas próximas à propriedade  havia um mendigo enrolado em uma estopa suja, estava todo coberto, encolhido  se protegendo do vento intenso daquela noite.  Ele estava imóvel no lugar há um bom tempo, alguns poderiam julga-lo morto mas das sombras de seu rosto coberto pela estopa os olhos prateados observavam a entrada com atenção. Se recolhendo nas sombras do sopé da casa ele se ergue deixando a estopa deslizar caindo ao chão. Sai das sombras caminhando altivo um homem trajando uma jaqueta longa de couro negro. A jaqueta se prendia um lado ao outro por 3 tiras de couro  que cruzavam o peito terminando em  presilhas prateadas a última quase a altura do cinturado.Na altura da cintura a jaqueta era presa por um cinto ligeiramente largo e negro com uma fivela redonda prateada. Embaixo da jaqueta podia se observar uma camisa de crepe de seda branca,um colete de seda negro, um lenço de seda creme em torno no pescoço sob a gola da camisa com tecido caindo sobre o colo do peito e preso embaixo da lapela da jaqueta e da primeira tira que a prendia. Ele puxava as mangas e as alisava tirando a poeira, suas mãos estavam cobertas com luvas brancas de cetim engomadas nas partes de cima,  enquanto caminhava apertava abotoaduras prateadas nas mangas da jaqueta que cintilavam quando ele se movia. Em sua cabeça seu rosto era oculto até embaixo da linha das orelhas por um grande chapéu pontudo de couro de abas bem largas que pendiam para baixo, sua  ponta pendia dobrando sobre o próprio peso na base da ponta uma fivela prateada fazia o ajuste do tamanho junto as grandes abas. Apenas podia se ver duas mechas de cabelo branco prateado, uma de cada lado do rosto caindo até o colo do peito e nas costas seu cabelo estava preso sob um rabo de cavalo embaixo do chapéu por uma presilha adornada. À medida que se aproxima do portão os saltos da as botas pretas de cano alto  faziam um som suave agora que ele desejava ser notado, as botas iam até o joelho e eram presas por fivelas de couro,dentro da boca da bota as calça de linho preta se prendiam. O "toc toc" do solado no pavimento de pedra aumentava a medida que ele se aproximava do portão. Sem dar muita atenção ao guarda ele já se dirigia para dentro da propriedade.


Última edição por Fallen em Seg Set 18 2017, 20:24, editado 1 vez(es)

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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Yidrin Gallux em Seg Set 18 2017, 19:43

Os ventos da superfície e a imensidão do céu. Isso não é algo que se vê todo dia quando seu lar está oculto no interior mais profundo da terra. A variedade de cenários e de seres é algo que encanta o grande lakriak em sua visita distante de seu domínio secreto. Vestido com um enorme capote cinza que esconde as suas peculiaridades que o diferem das outras criaturas que andam por estas terras e com a cauda abraçada em sua cintura, ele caminha procurando nada mais do que se atualizar sobre os acontecimentos da superfície enquanto aprecia as belezas dali, no caminho para as passagens rochosas e abafadas de seu lar.

-Ah, creio eu que já estou a muito tempo aqui em cima...E espero que esteja tudo inteiro lá em baixo...

...Dizia isso conhecendo o temperamento daquela a quem respondia por ele enquanto não estava presente. Não que o próprio Yidrin tivesse um temperamento tão diferente. Ele puxa de seu capote as sobras de um pequeno animal que havia pego e assado na manhã daquele dia, embrulhadas em folhas grandes de uma planta a qual havia esfumaçado na brasa para dar um sabor extra à carne. Ao abrir as folhas, Instantaneamente a expressão do lakriak fecha e seus lábios se distorcem rapidamente antes dele apertar os dentes e desabafar...

-E isso é tudo que sobrou! Grrrrrawr!!! Malditas sejam essas criaturinhas rápidas e evasivas, eu preciso de mais umas quatro para sequer ficar satisfeito! Eu deveria ter queimado elas, a toca e o bosque!

 Reclamava e esbravejava para sí mesmo sobre a aparente falta de comida para agradar o seu enorme corpo e paladar. Não se preocupava em parar e sentar para comer, fazia isso enquanto continuava a seguir a pequena estrada de terra enquanto mantinha em sua face o seu mal-humor espontâneo pela quantidade de comida e pela sua obrigação e responsabilidade de logo ter que voltar à toca, com nenhuma notícia muito interessante...
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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Yidrin Gallux em Seg Set 25 2017, 00:48

Finalmente essa viagem havia chegado ao seu fim, assim como várias outras que a antecederam. E agora era hora de Yidrin mais uma vez voltar para o sigilo de seu lar. O cenário ao qual havia chegado era uma visão que já havia sido gravada na sua mente. Ao invés de uma sensação nova de descobrimento, ali ele sentia a familiaridade de sua terra e o conforto de poder ser ele mesmo diante de outros semelhantes. Não precisaria ficar andando pelas sombras e escondido debaixo de panos e mais panos.

Passando por aquele ambiente rochoso e quente, Yidrin procurava uma das entradas que conhecia para retornar ao coração de sua casa. De maneira alguma era óbvia aquela passagem, mas ao mesmo tempo não era um segredo lacrado a sete chaves. Não passava de mais uma caverna naquele fim de mundo, totalmente desinteressante. O que guardava a secrecidade do local eram os vários túneis dentro da caverna que poderiam levar alguém não acostumado aos seus caminhos a se perder. E ninguém melhor para conhecer os caminhos do que os lakriaks que ali habitavam, principalmente o próprio metamorfo o qual costumava de tempos em tempos visitar a superfície atrás de conhecimento.

-Aqui estamos - Dizia Yidrin, ao entrar na caverna. -Mais uma vez descendo por estes túneis e imaginando quando farei minha próxima visita à superfície.

E então, lá dentro, rapidamente começava a percorrer o emaranhando de túneis, descendo até as câmaras quentes de seu domínio.

Onde a superfície do lado de fora já era quente devido ao ambiente, ali virava um forno. Uma região subterrânea próxima ao magma não poderia ser diferente. Mais uma vez, é um ambiente ao qual era familiarizado, mas também não podia se esquecer do frescor lá de cima.

-Um dia -Comentava para sí mesmo, pensando na situação de seu povo -Um dia não precisaremos mais viver escondidos do mundo.

A decida era longa. Algo até vantajoso para evitar que curiosos sem amor pela própria vida não chegassem ali, ou ao menos não chegassem inteiros. No fim daquele túnel onde estava, Yidrin sabia que já estava a sua casa e o seu povo. Assim que chega naquela caverna de espaço mais aberto, ele tira aquele enorme capote cinza e a camisa de pano logo abaixo. Ali ele podia ser livre daqueles empecilhos que só abafavam ainda mais seu corpo.

-Estou de volta! - Gritava - Saslah, cade você?!
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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por A Lenda de Materyalis em Ter Out 03 2017, 17:03

Considerações off

Pessoal, atenção às instruções abaixo, divididas nominalmente:

Anthony e Zoroléo:

- Como devem ter lido na edição do turno anterior, alguns detalhes das ações foram mudados. Entre eles, estão a definição da ordem de entrada na mansão (Malthus fora o primeiro, Singlond o segundo e o casal Wilnas e Merija em terceiro) e o corte de algumas ações do Anthony (como a descrição que fez do cômodo que eu não havia descrito, onde havia o baú). Para estes casos, é muito importante ressaltar: antes de adicionar qualquer detalhe na narração que influencie positivamente para o seu personagem, ou que esteja fora da sua interpretação ou acrescente detalhes no ambiente, sempre consultem o narrador. Em princípio, leva-se sempre a regra de que vocês devem interpretar somente o seu personagem, descrevendo suas reações e aspectos físicos. O cenário e NPCs estarão sempre na responsabilidade do narrador;
- Notem que no turno editado, Malthus está oculto e observa Singlond atrás da mesa da sala de jantar. Por ser um vampiro, ou seja, um morto-vivo, Malthus vê banshees (condição do Singlond) normalmente. Há de se considerar, também, que Singlond não viu ou sentiu a presença de Malthus no ambiente onde estão;
- Percebam que, na continuidade do turno, Merija age como se não tivesse visto ninguém na sala de jantar. O final do turno, no entanto, deixa subentendido que ela viu alguém, mas ela só conseguiria isso se fosse uma denin, onde dependendo da habilidade, poderia ver Singlond ou, por alguma razão, Malthus escondido.

Ranier, Dérik e Marianna:

- A continuação do turno descreve a festa, deixando Elgard livre num primeiro momento, mas trazendo a ele a possibilidade imediata de associação ao preparo do tablado para tocar para os convidados antes do encontro com Lady Ciadra. Apesar do objetivo central do episódio incorporar o encontro com a líder da Guilda dos Proscritos, não há impedimento para interações iniciais no ambiente (como o caso do homem que abordou Salenae);
- Os três personagens (Fallen, Elgard e Salenae) conhecem Sanlay, que é ecônomo de Lady Ciadra e, portanto, podem se dirigir a ele para serem levados a ela o quanto antes, caso não optem por não realizar nenhuma interação inicial na festa;
- Ao Ranier, o turno de resposta serviu apenas para enfatizar a importância do Fallen no episódio, de forma que, se desejar continuar a ação com ele entrando na festa, já está liberado;
- Ao Dérik e a Marianna, é importante salientar que, como Elgard e Salenae fazem parte da Guilda dos Proscritos, eles já se conhecem. Para o caso de alguma interação ocorrer envolvendo o Fallen, já o viram em algumas situações, mas não sabem muito sobre ele, e vice-versa.  

Todos:

- Procurem enxergar os meus posts como a página de um livro, e como a sua interpretação poderia completá-la. Se houver alguma reação sobre algo que não siga a ordem do texto, faça uma citação para que eu complemente na edição. Outro adendo é que, se você já descreveu, por exemplo, que seu personagem tem os cabelos negros, não é preciso falar sobre isso outra vez, a menos que haja um contexto que realmente peça isso. O mesmo vale para uma sensação já comentada, onde só deve ser falada novamente caso o personagem a intensifique (de "ele estava com medo", para "entrou em pânico") ou mesmo a mude (de "estava com medo" para "respirar aliviado ao constatar que não era o que pensava");
- Notem que minha resposta foi curta. Isso deve acontecer muitas outras vezes, mas esta objetividade é planejada e será importante em muitos momentos do projeto, daqui pra frente. Notem que meu turno complementa exatamente onde o outro parou, de forma que não terei que cortar nada no meu texto para dar uma continuidade lógica ao meu turno editado. Procurem fazer sempre o mesmo;
- A maior parte do meu tempo gasto na edição foi com ortografia (foram constatados erros como a falta de acento nas palavras), gramática (neste caso, houve mais situações de erros de pontuação nas frases) e na coerência e coesão do texto (notem que inverti ou cortei frases dos turnos, especialmente por não estabelecer uma sequência lógica). Procurem dar atenção especial a isso, pois certamente vai facilitar e apressar, muito, o desenvolvimento dos próximos turnos;
- Caso desejem feedback específico sobre pontos observados nos turnos, me procurem privadamente no Whatsapp, onde comentarei por áudio sem expor no grupo. Lembrando que todos os critérios apontados estão sendo observados para a seleção do livro físico, e serão pontuados em uma métrica que estou criando e divulgarei em breve.

Vamos ao jogo:




YIDRIN

A voz do líder soou com um sinal de resgate para o pachorrento, que deslizou as costas pelo pilar o mais rápido que pode, sob o olhar furioso de Saslah.

— K-kop-Yidrin! — gritou Misesh, interrompendo Saslah. — Eu estava lhe procurando.

No entanto, ele cometia um erro ingênuo: ignorar Saslah. Sua corrida lenta até a retaguarda não foi um problema para a lacertília, que se colocou em posição quadrúpede, salientou a língua bifurcada como a de uma serpente e perseguiu o mensageiro. Virou o corpo para lhe atingir as pernas com a cauda, aplicando uma rasteira certeira e suficiente para que quase as fraturasse.

— Atrevido! — bradou Saslah, com vocábulos separados pela letra "S" continuamente, como fariam as cobras peçonhentas. — Eu avisei que precisa da minha permissão para se aproximar dele! Não pense que alguma coisa mudou por ele ter chegado agora!

Saslah se debruçou sobre Misesh, que, caído de costas, via uma gota enorme de saliva da guardiã presa na língua, prestes a ser disparada em sua boca, como ela prometera.

— Estou aqui, kop-Yidrin! — respondeu ela, finalmente após render completamente o indefeso visitante. — Ensinando alguns modos a um intruso!

— Você não está entendendo! — bradou Misesh, se entregando à ansiedade. — Eu não sou um invasor, mas há um verdadeiro vindo para cá!

Cega pela raiva, Saslah deu um golpe com as unhas extremamente afiadas na lateral do rosto de Miseh, fazendo-o berrar. Àquela altura, não tinha mais condição alguma de controlar suas emoções, ainda que uma advertência séria estivesse diante dela.




MALTHUS

A menina fechou a porta tão rápido quanto abriu. Levou a mão esquerda ao peito. O coração estava acelerado. Sua respiração, ofegante. Começava a suar, como se o calor do verão invadisse aquela noite de outono.

— O que há, Merija? — perguntou Wilnas, enfim percebendo que algo estava errado com a amada.

— Eu... Não sei bem. — respondeu Merija, pausada e nervosamente. — Há algo perturbador deste lado.

— Ora, é claro que há. Eu também não teria a mínima coragem de me embrenhar por essas trevas. Eu me sentiria acompanhado pelos filhos do Maldito.

Aproximando-se de Merija, Wilnas tocou seus ombros, massageando-os levemente. Fechou os olhos e sentiu o perfume de alisso que ainda resistia em seu corpo encharcado.

— Venha relaxar. Este lugar já foi invadido antes. Não podemos ter certeza se outros não terão a mesma ideia que nós. Então, vamos aproveitar tudo o que pudermos, ainda que sejamos rápidos.

Mas, ao reabrir os olhos, Wilnas não viu sucesso em seus cortejos. A mão de Merija ainda repousava sobre a carapeta. Tremia como um galho lânguido abatido por uma forte ventania.

— Merija!?

— Deixe-me! — ordenou ela, se virando lentamente para fitá-lo de soslaio.

Wilnas deu dois passos para trás. Vira um cintilar discreto nos olhos da namorada, que não emanava o brilho do amor que sempre sentiu. Emudeceu, a vendo abrir novamente a entrada que há pouquíssimo tempo queria evitar.

— Quem é você? — inquiriu a menina, austeramente.




NATHAN

— Em que lugar estariam os fortes, não fosse sua ousadia? — indagou o líder, levantando as duas mãos, como em rendição.

O outro olhava desconfiado, curvando o corpo. Estava inseguro. Ainda não compreendia bem como o companheiro conduziria tudo.

— Nós já vimos a morte uma vez — continuou o homem. — Foi ela quem nos trouxe à nossa condição atual. Contudo, não nos arrependemos de ter negociado com ela. Como podem ver, seu imenso poder permite que estejamos aqui, dialogando convosco.

— Podemos vê-los, tocá-lose  destruí-los! — bradou o outro, nervoso, tentando revidar a pavidez causada pelos mortos.

— Sim, ele tem razão — disse o líder. — Mas não viemos aqui desafiá-los. Há um mestre entre vós e queremos vê-lo. Servimos ao seu mesmo deus e trazemos boas novas do norte. Uma arma há muito perdida que poderá engrandecer a fama do ceifador uma vez mais.

Viu-se um leve sorriso por baixo do capuz do homem, que testava discretamente com o olhar os seres presentes. Aparentemente, era ambicioso demais para blefar num lugar como aquele e conhecia muito sobre a criatura que habitava naquelas terras.





FALLEN

— Ei, espere! — ordenou o guarda. — Trajes negros não são permitidos na festa!

Apesar do tom determinante, ele parecia enfeitiçado. Deixara o estado de impressionabilidade de lado, mas era incapaz de avançar um passo para conter o misterioso convidado, que havia parado ao ouvir a ordem, porém sem se virar.

— A menos que eu tenha um nome importante a anunciar, não posso deixá-lo entrar e desrespeitar as normas claras que me foram dadas — disse o homem, segurando o cabo da espada ainda embainhada.
 
Por um breve momento, apenas o som da agitação do vento e da festa ao fundo podia ser ouvido. O corpo do sujeito girava lentamente, quase sem sair da posição. Ele levava a mão ao grande chapéu negro e o inclinava levemente para trás, revelando por completo a bela face afilada. O impacto do olhar frio trazia uma sensação quase sobrenatural, refletindo a luz bruxuleante das lamparinas presas ao portão de ferro. Suas sobrancelhas eram finas e grisalhas; a pele, alva e lisa como porcelana; seu nariz fino, de comprimento modesto, terminava em uma boca de traçado delicado, lábios medianos e com arco bem definido. Não fosse as roupas masculinas, seus lineamentos poderiam confundi-lo facilmente com uma mulher.

O guarda, no entanto, se ateve ao detalhe mais importante na aparência do visitante. Um leve brilho dourado era emitido de um par de brincos bem trabalhados, que pendiam de uma fina corrente presa nos ouvidos grandes, pontudos e reveladores de sua raça: um elfo.

— Acredito que Lady Ciadra faria uma exceção para mim, não? — Ele sorria de leve, gentil e inofensivo.

O elfo reposicionou seu chapéu e retomou seu caminho para a casa, sem esperar uma resposta do guardião, que, deixado para trás, emudecera.  


Lá dentro, a festa iniciara sem música, o que não parecia incomodar ninguém. O feiticeiro parara na soleira da porta, analisando cada detalhe do salão de festa e dos convidados, como se estivesse procurando algo ou alguém. Todos estavam bem vestidos, rindo e brindando em mesas redondas de madeira descoberta e qualidade questionável. Quase todas já estavam ocupadas. Havia cerca de trinta convidados dividindo o espaço amplo, onde dois cumins serviam apressadamente cervejas extraídas de toneis espalhados perto das arestas do aposento. Uma porta aberta à esquerda levava a um segundo ambiente similar, onde outras pessoas conversavam no mesmo tom.

O elfo começava a circular pelo recinto, enquanto deixava suas passadas anunciarem a sua presença protuberante. Com graciosidade, seus longos dedos apanharam uma taça de vinho da bandeja de um dos serviçais que passava por ele. Começava a ser notado, principalmente pelas roupas de corte mais refinado e até um pouco excêntrico, se comparadas às usadas pela maior parte dos convivas, que, apesar de usarem vestes garridas, nem se comparavam ao vestuário da aristocracia aliankina.

Todavia, quem mais chamava a atenção na casa era mulher esperada por Lady Ciadra. Ela procurava por um cabideiro para pendurar a capa que retirara ao entrar, revelando mais de sua aparência. Tratava-se de uma humana com cerca de vinte anos, pele quase tão alva como a neve e olhos azuis pungentes. Os longos cabelos pretos e ondulados desciam até um pouco abaixo dos quadris. Seu vestido, que contornava sua silhueta especialmente na cintura e também possuía um decote ousado, era de um tom cinza escuro e quase negro, com alguns detalhes em renda vermelha.

— Permita-me — disse a voz rouca de um indivíduo de meia-idade, que se esgueirou por trás da moça para pegar cordialmente a peça envoltória. — Deixe que eu entregue isso a um serviçal em seu lugar.

O sorriso discreto e os olhos entreabertos davam um ar galanteador ao homem, que buscava uma aproximação rápida. O porte físico robusto e as vestes encouraçadas revelavam que pertencia à guarda de Umonal, provavelmente de alguma patente alta.

— Uma dama como você, não pode ficar num lugar como este sem alguém para lhe proteger — disse ele, procurando cortejá-la com suas habilidades.

Na parte posterior do compartimento, Sanlay administrava o trabalho de dois homens vestidos com coletes e calças de couro marrom, usando camisas brancas e sujas. Eles martelavam pregos nas laterais de um tablado, que sustentava uma bela poltrona posicionada no centro, com bordas metálicas, sinuosas e de estofado azul. Uma escada dupla e serpentiforme passava por cima do estrado, se encontrando no andar acima, onde era possível ter apenas a visão de um corredor.


Última edição por A Lenda de Materyalis em Ter Out 10 2017, 19:21, editado 2 vez(es)

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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Fallen em Qua Out 04 2017, 10:26

O homem parava, a barra do fraque negro ondulando com o vento daquela noite. Seu corpo girava levemente, quase sem sair completamente da posição. Por um tempo breve apenas o vento e o som agitado do ambiente da festa ao fundo podiam ser escutados. Ele levava a mão ao grande chapéu negro e o inclinava levemente para trás revelando por completo a bela face afilada. O impacto do olhar frio que refletia a luz bruxuleante das lâmpadas de óleo eram quase que sobrenaturais, suas sobrancelhas finas, grisalhas, a pele alva, lisa como porcelana. Seu nariz fino de comprimento mediano terminava em uma boca de traçado delicado, lábios medianos de arco bem definido. A pessoa a frente do guarda agora lançava a dúvida se era um homem ou uma mulher, seus traços eram confusos. Não fossem as roupas masculinas aquilo poderia ser um problema. A atenção se volta então ao mais importante para ele, as orelhas. Um leve brilho dourado de um brinco trabalhado que pendia em uma fina corrente presa a orelhas pontudas. O Elfo o olhava, sua expressão parecia serena e gentil.

— Acredito que Lady Ciadra faria uma exceção para mim, não? — Ele sorria de leve, gentil e inofensivo.

Ele então reposiciona seu chapéu e retoma seu caminho para a festa sem esperar uma resposta do guarda que é deixado para trás.

O elfo para na soleira da porta olhando de lado a lado o salão de festa e seus convidados como se estivesse procurando algo ou alguém. Ele então adentra o recinto deixando os leves sons de sua passada denotarem sua presença. Ele destoava da maioria ali, suas roupas tinham um corte mais refinado e até um pouco excêntrico comparada a maioria que ali se encontrava. Ele então começava  circular na festa, com graciosidade seus longos dedos apanhavam uma taça de vinho da bandeja de um dos serviçais que passava por ele, o elfo então segue sem parecer lhe dar muita atenção.





Considerações em off:

Como voce pediu para postar; aquele lance do fraque longo, do crepe de ceda na camisa interna e seda no colete por serem tecidos diferentes.As fivelas terminam na altura do cinturado, que é o nome da parte da jaqueta onde tem uma redução na costura fica +- na ultima costela enquanto o cinto esta preso a cintura.


Fallen estaria literalmente circulando na festa e analisando o local e as pessoas que ali estavam com seu habito analítico e paranoico muito bem disfarçado sob sua faceta xD


Última edição por Fallen em Qua Out 04 2017, 20:34, editado 1 vez(es)

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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Singlond em Qua Out 04 2017, 13:40

Permaneceu imóvel quando a porta foi batida com a mesma velocidade com que fora aberta segundos antes.

As palavras da jovem à sua frente pareciam não fazer sentido a ele, e seu rosto deformado não transparecia expressöes, salvo seu seu olho que brilhava incomum. Havia, contudo, uma urgência de resposta, de proteger o que era seu daqueles invasores.

— Nes...Nesoma - balbuciou - Vão embora... Casa... Eu... Singlond... - dizia em uma voz úmida e sussurante -

Mesmo desconectadas, as palavras sussurradas ao vento poderiam fazer, ou não, algum sentido aos dois jovens à sua frente, mas sem desejar esperar que gosse entendido, o ser extendeu os dedos wm direção ao pescoço da garota parada à porta.

— Ladrões... Ladrões... - repetia -
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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Malthus em Qua Out 04 2017, 15:01

Matlhus continuava no recinto, calmo e observador, na verdade totalmente imóvel enquanto via o individuo na sua frente, entretanto, por esta escondido a criatura não conseguia perceber a presença do Alukan. Apos alguns instantes a maçaneta da porta é girada abrindo e fechando a porta rapidamente. A entidade a sua frente da um grito na tentativa de expulsar os invasores da localidade, não era entendível o porque da criatura conseguir falar ou se expressar no mundo material, porem não parecia ter surtido muito efeito com os jovens que estava do outro lado da porta, pois estes não pareciam ter notado tudo aquilo.
A uma mesa de distancia, os pensamentos de Malthus avaliava e analisava toda a situação. Tal posição era preocupante, pois não queria ser descoberto, ate que vozes voltavam a surgir do outro lado da porta. Resmungavam, e aparentemente o clima aventureiro que havia nos dois jovens havia sumido de repente. 
Apos ouvir algumas menções, Malthus concentra-se na maçaneta na porta por algum tempo, e utilizando seus poderes Alukan cria uma explosão na proporção que afeta-se a criatura a sua frente, com proposito de saber se a tal era possivelmente tangível ou que pelo menos desobstrui-se seu caminho e destruí-se a porta.
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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Salenae em Sex Out 06 2017, 15:26

Salenae entregou seu capuz para o homem, sorrindo levemente.
- Obrigada meu caro! – ela agachou levemente e inclinou sua cabeça para frente segurando a saia do vestido com a ponta dos dedos em um gesto de agradecimento.
Ela levantou a cabeça com um olhar mais sério.
- agradeço sua preocupação, mas não preciso de proteção aqui, pois estamos todos entre amigos. Não é? – e voltou a sorrir.
- Eu sou Salenae. É um prazer conhece-lo, senhor...? – Ela esperou ele se apresentar.


Última edição por Salenae em Sex Out 13 2017, 14:08, editado 1 vez(es)
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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Elgard em Sex Out 06 2017, 20:12

Conforme Elgard vai adentrando a festa ele observa atentamente cada convidado com um sorriso em seu rosto e também vai cumprimentando todos, de forma que vai a demonstrar certa felicidade de estar ao local junto aos outros convidados, além também de uma grande simpatia, nisso ele também informa a um serviçal que viria a se apresentar e tocar para os outros convidados também, para assim animar mais a festa, de forma que assim precisariam preparar um tablado para ele, mesmo que fosse simples. Logo voltando a antar pela festa ele apresentava um olhar como se fosse de desconfiado ou mesmo preocupado em quanto andava e não estava a cumprimentar, de forma possivelmente estava à procura de algo ou mesmo alguém, ao virar um pouco mais o rosto vê uma amiga da guilda se aproximando, possivelmente após a mesma ter uma conversa com outro homem que ali estavam os dois a se afastarem um do outro, logo um sorriso esplendido e espontâneo abre em seu rosto.

—Boa noite minha querida Salenae. Sim, com todo e maior prazer. — Ele a cumprimenta de volta.

Assim em seguida Elgard se direciona a um tablado que estava em fim pronto para o uso do mesmo, conforme ele caminha até lá também já vai apanhando de sua cintura sua flauta e assim que chega ao local anuncia que tocaria e logo inicia a tocar, ele começa com uma musica meio agitada e de certa forma também apresenta certo conforto e alegria, como se desse um ar maior de amizade entre as pessoas do ambiente. Sua visão parecia focada sempre em sua amiga, como se fosse uma música para ela, mas logo ele desvia um pouco o olhar em direção a um elfo com roupas um pouco excêntricas comparada à maioria dos outros convidados e o observa pegando a bebida de uns dos serviçais, não dava para saber exatamente o que ele pensava, mas naquele momento ele expressava facialmente certa confiança e duvida como se parecesse que conhece a pessoa só não saberia de onde, mas não para com sua apresentação.

Após a conclusão de umas duas musica ele agradecia as pessoas que gostaram da musica, olhava na direção de sua amiga com um sinal seguido com o olhar para os dois se reunirem, ele a aguarda para irem juntos e assim que ela chega até Elgard logo se pronuncia para ela.
—Acho que já esta na hora. Não?— Ele estendo o braço para poderem irem juntos.


Última edição por Elgard em Qua Out 11 2017, 15:29, editado 2 vez(es)
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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Yidrin Gallux em Seg Out 09 2017, 22:32

Parece que a previsão de Yidrin era realidade. Como já havia imaginado, o temperamento de Saslah era responsável pela cena que se desenvolvia logo à sua frente. A primeira coisa a testemunhar era a sua representante atacando outro ser, o qual o líder conhecia relativamente pela sua velocidade desprovida de qualquer tipo de pressa ou mínima rapidez. Apenas via o ataque se desenrolando antes mesmo de sequer ter condições de dar continuidade ao seu anuncio de chegada.

Yidrin suspira enquanto começa a se mover diante dos dois e escuta as palavras da sua subordinada, que parecia estar e um passo de deixar algumas marcas mais duradouras do que a rasteira que havia acabado de levar. Mas o que surpreende o humanoide são as palavras de Misesh. Se fosse se preocupar com todos os boatos e palavras de que haviam sido expostos ficaria louco, mas por outro lado a situação atual de seu povo não permitia qualquer falha. Informação é importante para que se mantenham em segurança, além de que não custaria nada ouvir o que o pobre coitado tinha a dizer.

Antes que dissesse para Saslah se acalmar, ela ataca novamente o pachorrento. Isso faz com que Yidrin distorça sua face em fúria e emita um rosno gutural, antes de bater sua calda contra o chão próximo aos dois e por sua opinião e emoções diante daquele cena em palavras:

-SASLAH! -Grita ele, sua fúria clara no tom de voz- O que em inferlis eu estou vendo aqui?!

Esperava que suas palavras acordassem ela antes que tivesse que tornar a advertência em contato físico. Não gostava e nem queria ter que se impor em violência contra seu povo, mas em momentos que as coisas saem do controle as opções são reduzidas. De qualquer modo, ele continua, ao menos abendo que Saslah não é alguém que simplesmente o ignoraria diante da fúria do próprio Yidrin.

-Eu ouvi algo que de maneira alguma deve se deixar passar em branco em NENHUMA hipótese da boca dele! -Dizia com menor fúria, mas com a mesma intensidade- VOCÊ ao menos ouviu o que ele tem a dizer?! QUAL explicação você pode me dar, querida SASLAH?!

Com suas palavras, ele queria uma resposta e uma explicação pela atitude de Saslah. E a esse ponto ela deveria saber que o melhor Yidrin para se ter por perto definitivamente não é o Yidrin que não teve o que quer em um momento de temperamento caloroso dele, e a ironia misturada é um dos marcadores mais claros de que seu humor havia acabado de despencar em um poço de chamas.
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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Nathan em Ter Out 10 2017, 11:38

Nenhum ruído surgiu em resposta às palavras dos invasores. As esferas cymblarkinas flutuavam indiferentes e silenciosas, prolongando a apreensão mórbida que naquele lugar era quase palpável. Então, de súbito, um ruído inicialmente indecifrável teve início até que sua fonte se revelava às costas dos dois mortos-vivos, vindo da necrópole que haviam deixado para trás. O som, cada vez mais próximo, pertencia a uma enorme lâmina encurvada cuja aparência estava diretamente associada à alcunha do ceifador. A foice era puxada por apenas uma mão de dedos esqueléticos e cumpridos que se fechavam ao redor de sua haste, arrastando-a sobre a via de chão batido que deixava a necrópole em direção à Região Disforme.

- Muitos são os curiosos que buscam desvendar a lenda do ceifador. Poucos são os que têm algo a oferecer além das próprias almas. Desfraldem suas intenções, filhos da noite...

O semblante do Ceifador estava quase totalmente oculto sob as sombras criadas pelo capuz de seu manto maltrapilho, deixando a mostra apenas parte do queixo ossudo e dos lábios finos e escuros, dos quais as palavras saíam quase como num sussurro que ecoava no descampado. Além disso, apenas uma luz sutil em tons púrpuras pareciam emanar das órbitas profundas onde deveriam estar os olhos daquela criatura sinistra. Caminhava lentamente, com passos pesados e cambaleantes, com o manto arrastando-se sobre a terra.

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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

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