(Conto) A Cidade de Ferro

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(Conto) A Cidade de Ferro

Mensagem por Baksos em Ter Nov 28 2017, 16:08

A CIDADE DE FERRO

As sobras da principal forja da Cidade de Ferro, conhecida como Fornalha, eram descartadas através de um poço diariamente ao término da jornada de trabalho. A escuridão subterrânea era atenuada por lamparinas a óleo e fogueiras espalhadas no perímetro da ampla caverna, longe do grande buraco no teto que vomitava os restos de metal retorcido e chamuscado vindos da Fornalha. O barulho da chuva metálica sobre o vasto oceano de ferro e aço era ensurdecedor e ecoava através dos diversos túneis que levavam ao fundo do poço. Assim que as últimas peças caíam, um enxame de Catadores se lançava  sobre o Lixão em busca de ferramentas e utensílios que poderiam ser negociados em outras partes da Cidade de Ferro. Os grandes olhos que variavam em tons do amarelo ao vermelho vasculhavam cada pedaço de metal, os dedos longos e finos manuseavam apressados tudo que lhes chamava a atenção até certificar-se de sua valia ou jogar displicente para trás o metal considerado novamente inútil. Há anos, a vida de boa parte dos goblins mombranistas da cidade subterrânea estava limitada a afazeres inferiores, marginalizados e incapazes de competir com a astúcia e falta de escrúpulos dos rimertistas que conquistaram o governo da Cidade de Ferro.

Pingo era um destes mombranistas que havia se tornado Catador após uma vida inteira trabalhando na Fornalha. Quando os governadores da Cidade de Ferro eram renomados artífices seguidores dos dogmas de Mombran, a Fornalha era o maior motivo de orgulho goblinóide. Diversos equipamentos e mecanismos eram produzidos com finalidade de facilitar a vida na cidade subterrânea e promover o progresso, mas desde que os rimertistas assumiram o poder, as "engenhocas" foram perdendo prestígio e outras áreas da cidade começaram a prosperar, transformando a Fornalha numa fábrica subempregada e sucateada. Pingo se concentrava em coletar engrenagens e válvulas, fios de cobre e chapas de aço para seus próprios experimentos, que eram vendidos para os rimertistas ou trocados no Campo de Fungos por comida para seus colegas de ideologia. Alguns dos mombranistas insatisfeitos com o governo dos mercenários tentavam se rebelar, mas estes acabavam aglomerados nas Catacumbas, uma rede de túneis labirínticos que serviam de prisão para os fora-da-lei.

Enquanto revirava o ferro-velho, Pingo erguia uma tampa larga e percebia uma cabeça chata verde-musgo. Um pouco de sangue escuro e viscoso escorria sobre o rosto do goblin que despertava assustado arfando por oxigênio e se erguendo apressado, correndo os olhos largos ao redor, como que procurando por alguém, até que finalmente reconhecia o olhar de espanto de Pingo, que observava sem reação.

- Pingo??? Eu consegui??? Estou no Lixão!!! - Eufórico e ignorando os próprios ferimentos, o goblin saltava sobre Pingo, que era nanico mesmo para a estatura padrão goblinóide, abraçando-o e derrubando-o sobre a pilha de ferro. Estava feliz demais para se deter pelos diversos cortes pelo corpo anêmico. 

- C-como você veio parar aqui, Cabeçudo? Você não tava nas Catacumbas?

- É óbvio que eu fugi, seu cabeça oca! - replicava o Cabeçudo, levantando-se e estendendo a mão para ajudar a erguer seu amigo Pingo. - Cavamos e cavamos na esperança de chegar ao poço! Funcionou!!! - o goblin olhava para o grande buraco no alto da caverna e depois voltava a olhar o Lixão. - Temos que sair daqui! Os guardas vão ficar loucos quando sentirem falta do meu sorriso lindo! - Os dois riam, deixando a mostra os dentes desproporcionalmente grandes e amarelos, com caninos inferiores que mal cabiam nas bocas.

- Vamos pra minha toca! Não devem procurar lá, por enquanto! E você vai me contar direito essa história!!! Ainda não consigo acreditar que sua cabeça permitiu que escapasse por qualquer buraco que seja! - com um tapa na cabeça grande do amigo, Pingo pegava sua bolsa de couro e jogava sobre o ombro, caminhando apressado sobre ferro e aço até um dos diversos túneis que deixavam para trás o Lixão.



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Re: (Conto) A Cidade de Ferro

Mensagem por Baksos em Qua Nov 29 2017, 15:31

A porta de ferro se abria com um rangido baixo em seu eixo, revelando uma recâmara pequena e abarrotada de geringonças, não muito diferente do Lixão. Apressado, Pingo fechava a porta atrás de si, correndo um trinco que se encaixava no batente também metálico e então voltava sua atenção para o outro goblin, quase um palmo mais alto, mas bem mais magro. O fugitivo das Catacumbas conhecido como Cabeçudo estava de costas, com as mãos magras na cintura olhando para as diversas engenhocas espalhadas por bancadas ou penduradas no teto da caverna. Um pouco de sangue escorria de cortes em seus braços e na cabeça chata e esverdeada, mas ele parecia ignorar a dor.

- Então nosso pessoal agora virou mesmo engenhoqueiro? - questionava o Cabeçudo, enfatizando pejorativamente o termo "engenhoqueiro", como os mercenários chamavam os artífices mombranistas. - E pensar que há alguns anos nossas criações eram idolatradas por toda cidade.

- A gente devia governar novamente... - o Cabeçudo virava para seu anfitrião, que enchia uma tigela com água em um tambor metálico no canto do cômodo. Pingo oferecia a tigela para o amigo, sem disfarçar o desconforto com as palavras do outro goblin.


- Já tentaram isso. Você passou anos preso. Muitos morreram. A maioria talvez nunca mais saia das Catacumbas.

O Cabeçudo apanhava a tigela, dando goles longos para saciar a sede. Depois derramava o restinho sobre a cabeça oleosa e suja, sacudindo a cabeçorra sem cabelos em seguida.

- Tentamos. Mas não tentamos direito. Agora sabemos que a milícia se vendeu pros mercenários. Não podemos contar com eles.

Pingo olhava confuso para o amigo, coçando as costelas desnudas enquanto pensava.

- Como quer derrubar o governo dos mercenários sem a milícia? Vamos acabar todos nas Catacumbas. Uma cabeça tão grande e que serve apenas para enfeite. - ele ria, tentando descontrair do assunto pesado proposto pelo Cabeçudo.

- Somos artífices. Passamos nossa vida construindo. Criando. Porque não podemos superar a força da milícia? Derrotá-los. Ou simplesmente mostrar que estão apoiando a ideologia que vai perder a disputa. Se notarem que somos mais fortes que os rimertistas, mudarão de lado de novo! Podemos...

As palavras do goblin rebelde eram interrompidas por batidas fortes na porta de ferro, fazendo a dupla mombranista se entreolhar em silencio. O tempo entre as batidas e a voz grave lá fora parecia se arrastar por uma eternidade.

- Sabemos que você está aí, pequeno! Abra essa porta!

Os dois goblins olhavam petrificados para a porta estreita de ferro, até que finalmente Pingo deixava o transe e olhava para o Cabeçudo, com um dedo longo sobre a boca grande, pedindo silêncio. Em seguida, apontava para o tambor de água, e logo o amigo entendia a mensagem, dando passos furtivos em direção ao tambor, e entrando devagar no mesmo... Pingo lhe oferecia um pequeno tubo metálico, que seria usado para respirar enquanto estivesse ali dentro. E, rindo, observava o Cabeçudo afundar na água. Cobria parcialmente o tambor com uma tampa e se aproximava da porta enquanto as batidas fortes se repetiam.

Após abrir o trinco e puxar a porta, o rangido preenchia o ar novamente, revelando no corredor adiante dois goblins de olhar debochado segurando porretes de madeira e vestidos com trajes simples, mas com uma capa amarela que os identificava como membros da milícia rimertista. Responsáveis pela ordem e segurança na Cidade de Ferro. Logo que a porta abria, e antes que Pingo pudesse falar alguma coisa, os dois entravam na pequena toca, empurrando de lado o goblin que mantinha o olhar baixo para evitar provocações.

- E-em que posso ajudar?

Os dois ignoravam a pergunta por alguns instantes, olhando a parafernália espalhada e o caos que era a toca do Catador. Mexiam desinteressados em algumas engrenagens, atirando-as de qualquer jeito no chão.

- Tivemos um pequeno incidente nas Catacumbas. Alguns prisioneiros fugiram hoje. E como você não estava pelo Lixão junto com os demais Catadores, imaginamos que podia ter alguma informação útil pra gente.

Pingo tentava disfarçar o nervosismo, pegando a mesma tigela que havia oferecido para o Cabeçudo e a enchendo através da fresta que deixou aberto no tambor de água. Voltava para os milicianos e oferecia a bebida com a cabeça baixa e os olhos para o chão. Um deles apanhava a tigela e cheirava antes de derramar na boca cheia de dentes amarelos. Em seguida, o guarda cuspia toda a água no chão, arremessando longe a tigela, que se chocava com uma engenhoca pendurada no teto e a derrubava.

- Mas que porcaria de água é essa? Tem gosto de rato podre! - falava o guarda enquanto cuspia novamente.

- Nós Catadores ficamos com a sobra da água e da comida, senhor. Outras áreas da Cidade de Ferro são abastecidas primeiro. Principalmente o Conselho de Anciões... e o Refúgio, que parece ficar com quase toda água pras termas.

Após uma última cusparada, o guarda olhava sério para Pingo, que parecia ainda menor do que o normal. Encolhido e sem erguer o olhar, o goblin nanico percebia de canto de olho a movimentação dos outros dois pelo cômodo pequeno. Mexiam com os pés as ferramentas e engrenagens que estavam espalhadas pelo chão, cutucavam com seus porretes as que estavam penduradas. A voz de Pingo quebrava novamente o silêncio.

- Senhores, nem sequer sabia do ocorrido nas Catacumbas. Estava apenas trabalhando nessa nova invenção. - ele dizia apanhando sobre uma bancada uma esfera metálica aparentemente simples e leve. Erguia mostrando aos milicianos. - Eu estava terminando essa engenhoca, como vocês chamam. Ia levá-la ao quartel. Acredito que será útil. - ele estendia o braço comprido em direção ao guarda, oferecendo a esfera.

- E o que desgraça esse negócio faz? - o guarda pegava a esfera, testando seu peso insignificante.

- Ao estourar com impacto ela produz um clarão bem forte pros nossos olhos acostumados com a escuridão. Pode ser usada em controles de arruaceiros. Quem não estiver esperando pelo brilho, ficará atordoado certamente. - Pingo explicava orgulhoso de sua própria criação, ao mesmo tempo que tentava distrair os milicianos da presença do prisioneiro fugitivo. - Podem ficar com esse protótipo. Se ele se provar útil, será uma honra produzir mais para os Capa Douradas.

O miliciano guardava o artefato com cuidado após saber de seu efeito, e parecia ignorar as lisonjas de Pingo. O outro guarda pegava uma outra ferramenta em cima da bancada para não sair de mãos vazias e dava um sorriso amarelo para o Catador. - Apenas uma recordação de sua boa vontade, pequeno.

- Se ouvir ou ver algum dos fugitivos, contamos com essa sua boa vontade, Pingo. Quem sabe não ganha alguns favores. Haverá recompensas pela captura dos rebeldes. - E com isso, os dois caminhavam novamente para a porta que havia permanecido entreaberta.

Ao perceber que os dois guardas se afastavam pelo túnel até a próxima toca, Pingo fechava apressado a porta metálica e se encostava na mesma com um suspiro aliviado. Então, um sorriso contido se formava em sua boca larga e ele se aproximava do tambor de água. Ele dava algumas batidas ritmadas na lateral do tambor, fazendo o Cabeçudo emergir ofegante. Ao ver a cara feia do amigo, Pingo se jogava gargalhando no chão, segurando a própria barriga.

- Rato podre cabeçudo! hahahahahaha

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